A poucos dias da renhida segunda volta das eleições no Brasil — disputada pelo atual chefe de Estado, Luiz Inácio Lula da Silva, que procura a reeleição, e pelo senador de direita Flávio Bolsonaro —, surgiu uma nova polémica diplomática com a Argentina.
Na terça-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro acusou o presidente argentino, Javier Milei, de uma «tentativa de ingerência» na segunda volta das eleições, marcada para 25 de outubro, por ter insinuado que Lula poderia «roubar» o ato eleitoral.
Classificando as declarações de Milei como «ofensas», o ministério afirmou que estas «constituem uma nova e inaceitável tentativa de ingerência externa no processo democrático brasileiro». Acrescentou ainda que as palavras do presidente argentino não correspondem «à postura que deve adotar o chefe de Estado de um país amigo».
Horas antes, na terça-feira, Milei escrevera na rede social X, numa referência a Lula: «Espero que o seu último truque de campanha suja não inclua roubar as eleições... esquerdista ladrão».
Em resposta, o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil afirmou que Milei tinha repetido «mentiras divulgadas por aqueles que perderam as eleições e protagonizaram a tentativa falhada de golpe militar de há quatro anos», considerando as declarações uma «manifestação antidemocrática».
Este episódio agrava ainda mais as relações bilaterais entre os dois países, que já atravessavam um período de tensão. Em julho passado, o Brasil tinha reduzido o nível das suas relações diplomáticas com a Argentina e chamado o seu embaixador para consultas.
Antecedentes de uma crise diplomática
Também nessa altura foram declarações de Milei que desencadearam a controvérsia. Durante o lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que apoia, o presidente argentino chamou «ladrão» e «presidiário» a Lula. Segundo a agência de notícias AFP, as declarações aludiam ao período em que Lula esteve preso por corrupção, há vários anos, antes de as condenações serem anuladas.
Lula e Bolsonaro trocam acusações perante a justiça eleitoral
Entretanto, no Brasil, a tensão política continua a aumentar. Na terça-feira, o candidato de direita Flávio Bolsonaro pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que anulasse a candidatura de Lula, alegando propaganda eleitoral indevida através do WhatsApp. Por sua vez, Lula pediu à mesma entidade que fizesse o mesmo em relação a Bolsonaro, devido à alegada interferência da Meta na segunda volta.
Segundo a AFP, o recurso apresentado por Bolsonaro invoca um alegado «abuso de poder» por parte de Lula, relacionado com a suposta divulgação em massa de ações governamentais durante o período eleitoral através de uma conta oficial do WhatsApp, plataforma detida pela Meta.
Por seu lado, uma fonte da campanha de Lula disse à AFP que será apresentado ao TSE um recurso por «manipulação algorítmica» da Meta, que incluirá um pedido de anulação da candidatura de Bolsonaro.
A Meta, proprietária do Facebook, Instagram e WhatsApp, está no centro das queixas apresentadas por Lula, que acusa a empresa de alegadamente o prejudicar nas suas plataformas antes da segunda volta.

Flávio Bolsonaro, de 45 anos e filho do antigo presidente Jair Bolsonaro, condenado pela justiça, conseguiu uma ligeira vantagem sobre Lula na primeira volta das eleições, realizada a 4 de outubro, ao obter 47% dos votos, contra 45% do atual presidente. Apesar da pequena diferença percentual, a distância correspondeu a cerca de 2,2 milhões de votos.
As duas campanhas intensificaram os esforços para conquistar novos eleitores, mas as sondagens mais recentes continuaram a revelar uma disputa renhida, a poucos dias da votação decisiva.
Num reflexo da polarização política que atravessa o Brasil, Lula e Bolsonaro trocaram uma série de insultos durante o primeiro debate presidencial, realizado no domingo. A contagem decrescente para a segunda volta, marcada para 25 de outubro, ficou assinalada por acusações e expressões agressivas, incluindo «mentiroso», «palhaço», «bandido» e «corrupto».
Durante o debate, Bolsonaro disse a Lula que «o Brasil vai reformá-lo», numa referência à sua retirada da vida política. Tentou também desconcentrá-lo, caminhando de um lado para o outro atrás dele durante o encontro, perante as câmaras, abanando a cabeça, sorrindo com desdém e troçando enquanto Lula falava.
Por sua vez, o atual presidente chamou a Bolsonaro «mentiroso compulsivo» e «bandido». Disse ainda que não queria estar perto de um «miliciano», numa alusão às alegadas ligações do seu adversário a grupos paramilitares do Rio de Janeiro.
Meta afirma ter cumprido as ordens do tribunal eleitoral
A Meta tornou-se também uma das protagonistas dos dias que antecedem a segunda volta das eleições presidenciais. Depois de ter sido alvo de escrutínio por parte do Tribunal Superior Eleitoral, a empresa de redes sociais afirmou, na terça-feira, ter cumprido as ordens do tribunal para garantir um tratamento igualitário das campanhas de Lula e Bolsonaro nas suas plataformas.
Na segunda-feira, o tribunal concedeu à empresa norte-americana um prazo de 24 horas para demonstrar que estava a cumprir as medidas impostas, sob pena de uma multa diária de cerca de 200 mil dólares.
«Concluímos a implementação das medidas para dar cumprimento à decisão do Tribunal Superior Eleitoral», declarou a Meta num comunicado.
Na resposta enviada ao tribunal, a empresa afirmou que «os conteúdos relativos a ambas as candidaturas são tratados de forma igualitária e não discriminatória», segundo um documento publicado pelo portal de notícias Poder360.
«O que se pretende salvaguardar é a transparência e a igualdade entre os candidatos», afirmou o juiz Marco Aurélio Bellizze, depois de presidir à reunião, citado numa nota do TSE.
A campanha de Lula acusou a Meta de «ingerência» por restringir o alcance dos seus conteúdos no Instagram e no WhatsApp. Denunciou também que a ferramenta de inteligência artificial do WhatsApp se recusava a gerar conteúdos eleitorais sobre Lula, mas não fazia o mesmo em relação ao seu adversário.
A Meta negou favorecer qualquer candidato, embora tenha reconhecido a existência de falhas, como a desativação acidental de anúncios da campanha de Lula. A empresa atribuiu esses problemas a «incidentes» técnicos que, segundo afirmou, não afetaram apenas o Brasil.
Por sua vez, o Conselho Consultivo de Conteúdos da Meta, que supervisiona de forma independente a moderação nas plataformas do grupo, afirmou na terça-feira ter identificado «falhas recorrentes» na moderação de conteúdos relacionados com as eleições presidenciais brasileiras.



















