MÉDIO ORIENTE
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Houthis tomam ilha estratégica no Mar Vermelho; assumem o controlo da zona de Bab al-Mandeb
Combatentes Houthi tomaram a ilha de Mayyun depois de as forças governamentais se terem retirado, reforçando o controlo do grupo apoiado pelo Irão sobre a via marítima estratégica que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden.
Houthis tomam ilha estratégica no Mar Vermelho; assumem o controlo da zona de Bab al-Mandeb
Combatentes leais aos houthis gritam palavras de ordem durante um comício para recrutar mais combatentes, em Sanaa, a 10 de setembro de 2026. / AFP

Os Houthis do Iémen tomaram na sexta-feira uma ilha estratégica no Mar Vermelho, situada no meio do estreito de Bab al-Mandeb, completando uma ofensiva para assumir o controlo de uma via marítima crucial para as exportações de petróleo da Arábia Saudita, segundo um responsável do governo local e testemunhas oculares disseram à AFP.

Os Houthis, apoiados pelo Irão e que controlam há anos grandes partes do norte do Iémen, lançaram na semana passada uma ofensiva em larga escala contra as forças governamentais apoiadas pela Arábia Saudita, obtendo uma série de vitórias em combates que já fizeram centenas de mortos.

A Arábia Saudita respondeu com dezenas de ataques aéreos, tendo os dois mais recentes atingido o aeroporto de Mocha, segundo os meios de comunicação social dos Houthis na sexta-feira.

Os combates no Iémen assumiram um papel central na guerra mais ampla no Médio Oriente, que eclodiu com ataques norte-americanos e israelitas contra o Irão e levou a República Islâmica a bloquear outra via marítima crucial para os fluxos globais de energia, o estreito de Ormuz.

“Barcos que transportavam combatentes Houthi armados chegaram à ilha de Mayyun depois de as forças governamentais se terem retirado ontem”, disse à AFP o responsável do governo local, referindo-se à ilha também conhecida como Perim.

“Os Houthis concluíram a tomada da zona de Bab al-Mandeb e da ilha de Mayyun, que se situa no meio do estreito”, acrescentou o responsável, falando sob condição de anonimato.

Uma testemunha ocular afirmou que homens armados estavam a “posicionar-se ao longo da costa de Bab al-Mandeb e a circular em veículos militares”.

Bab al-Mandeb liga a Ásia à Europa através do Mar Vermelho e do Canal de Suez. A sua importância como rota de trânsito para as exportações de petróleo da Arábia Saudita, o maior exportador mundial de petróleo, aumentou desde o início da guerra no Médio Oriente.

Tanto o Brent, principal referência internacional, como o West Texas Intermediate (WTI), dos Estados Unidos, eram negociados acima dos 100 dólares na sexta-feira.

“Apocalíptico”

Antes da ofensiva, os Houthis já controlavam grande parte do norte do Iémen, incluindo a capital, Sana, e a principal cidade portuária do Mar Vermelho, Hodeida.

No entanto, não controlavam qualquer território com acesso direto ao estreito de Bab al-Mandeb.

Os Houthis já tinham utilizado drones e mísseis para perturbar a navegação no Mar Vermelho.

Embora a Arábia Saudita tenha respondido com ataques aéreos, não conseguiu travar o rápido avanço dos Houthis.

“Penso que os sauditas fizeram tudo o que podiam para evitar esta guerra, mas não creio que tenham agora outra escolha”, afirmou Farea Al-Muslimi, investigador do grupo de reflexão Chatham House.

“Os Houthis levaram a situação ao limite e, seja qual for o custo que os sauditas estejam a considerar neste momento, é simplesmente mais barato do que será daqui a dois anos.”

Os combates no Iémen provocaram mais de 500 mortos desde a semana passada, na sua maioria combatentes, segundo um balanço da AFP compilado a partir de várias fontes.

Cerca de 20.000 pessoas foram também obrigadas a abandonar as suas casas, segundo a Organização Internacional para as Migrações, que divulgou os dados na terça-feira.

Mohamed, um iemenita de 46 anos que fugiu de Mocha a meio da noite, disse à AFP que havia uma atmosfera “apocalíptica” na cidade portuária.

Mujahid Tahami, que também fugiu em direção a Áden, afirmou que algumas famílias foram vítimas de “pilhagens por parte de grupos criminosos enquanto tentavam fugir”.

Crise humanitária

O Iémen voltou a mergulhar numa guerra em julho, após anos de relativa calma, interrompidos por episódios esporádicos de violência e pelo agravamento da pobreza.

A coligação liderada pela Arábia Saudita que combate os Houthis afirmou na quarta-feira que o grupo tinha lançado mísseis balísticos e drones contra várias cidades no sul da Arábia Saudita.

O porta-voz militar dos Houthis, Yahya Saree, afirmou na quinta-feira que a Arábia Saudita tinha lançado 64 ataques contra o Iémen nas 24 horas anteriores.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas reuniu-se na quinta-feira para discutir o conflito. O enviado especial da ONU para o Iémen, Hans Grundberg, apelou ao “envolvimento activo de todos os membros deste órgão para conter aquilo que poderá ser o início de um conflito muito mais perigoso”.

A reunião de emergência foi convocada pelo Reino Unido, que pediu ao Conselho de Segurança que “envie uma mensagem clara e consistente: os Houthis devem reduzir a escalada, cessar os seus ataques e regressar a um caminho que conduza à paz”.

As hostilidades começaram em julho, quando os Houthis permitiram que uma aeronave iraniana aterrasse no Iémen, desafiando o controlo saudita do espaço aéreo iemenita.

O governo respondeu atacando o aeroporto de Sana, um ataque que os Houthis atribuíram à Arábia Saudita.

A continuação dos confrontos ameaça mergulhar novamente o Iémen num conflito que matou centenas de milhares de pessoas e desencadeou uma das piores crises humanitárias do mundo.

Os Houthis tomaram a capital do Iémen e expulsaram o governo, antes de combaterem a coligação liderada pela Arábia Saudita entre 2015 e 2022, quando entrou em vigor um cessar-fogo mediado pela ONU.