Para os amputados palestinianos em Gaza, uma campanha da Adidas com a participação de um ex-soldado israelita que perdeu uma perna passou a representar duas realidades marcadamente diferentes.
O ex-soldado israelita Shalev Biton participa numa campanha local promovendo o serviço "Single Shoe" da Adidas, destinado a amputados e a outras pessoas que precisam de apenas um sapato.
Entretanto, em Gaza, milhares de palestinianos que perderam membros em ataques israelitas continuam a enfrentar dificuldades para obter próteses básicas, peças de reposição e reabilitação.
O contraste incomodou palestinianos amputados no enclave, que questionam por que é que um ex-soldado israelita foi escolhido para uma campanha deste tipo enquanto as suas próprias necessidades permanecem amplamente sem resposta devido ao bloqueio israelita, e apesar da vigência de um acordo de cessar-fogo.
“Como é que a Adidas faz uma coisa destas?”
Omar Haliwa, 14 anos, perdeu a perna num ataque israelita enquanto ia buscar água. Vários parentes que estavam com ele foram mortos.
“Como a Adidas pode escolher um soldado israelita e colocá‑lo num anúncio enquanto nós, os feridos da guerra em Gaza, sofremos tanto?” diz Haliwa.
Ele afirmou que perder a perna mudou a sua vida completamente, enquanto as tentativas de obter uma prótese adequada esbarraram repetidamente na falta de matérias‑primas nos centros de prótese de Gaza.
Para Haliwa, ver um ex‑soldado israelita receber serviços feitos sob medida para amputados enquanto os palestinianos lutam para conseguir próteses básicas foi doloroso. Ele pediu que a Adidas prestasse atenção às crianças e aos jovens palestinianos que perderam membros em ataques israelitas.
“Não temos nada”
Kifah al Fakhouri, que perdeu a perna num ataque a um café à beira‑mar em Gaza City, disse estar chocada com a campanha.
“Eu gostaria que a Adidas olhasse para as necessidades do povo de Gaza e da Palestina, porque temos milhares de amputados”, afirma.
“Este soldado perdeu a perna em 2021 e agora tem uma prótese e recursos. Nós, em Gaza, não temos nada — nem tratamento, nem equipamento, nem suprimentos.”
Fakhouri afirmou que as próteses disponíveis em Gaza muitas vezes não respondem às necessidades dos pacientes, sendo algumas pesadas demais ou inadequadas para o uso diário.
Os amputados precisam de juntas modernas, peças de reposição e próteses melhores para recuperar a mobilidade, disse ela, acrescentando que perder a perna afetou o seu trabalho, a sua locomoção e praticamente todos os aspectos da vida diária.
Ahmed Jawadi al Balawi, outro palestiniano que perdeu a perna durante a guerra, disse que a sua prótese já estava gasta e precisava de manutenção e peças de reposição.
“Olhem para nós com misericórdia”, disse ele. “Eles não precisam de ajuda como nós. Eles têm recursos. Nós não temos nada. Fazemos coisas com nada.”
Balawi afirmou que muitos amputados em Gaza são obrigados a usar próteses antigas ou mal ajustadas e lutam para encontrar sapatos e acessórios compatíveis com elas.
Nabil Abdullah Mahmoud Ibrahim perdeu a perna quando um drone israelita o atingiu enquanto jogava futebol com outras crianças numa escola que abrigava palestinianos deslocados no norte de Gaza.
“A Adidas não deveria estar a apoiar Gaza? Quando tantas pessoas aqui perderam membros?” perguntou. Disse que os palestinianos amputados deveriam receber o mesmo apoio e as mesmas oportunidades disponíveis para outras pessoas com ferimentos semelhantes.

Mais de 8000 amputados em Gaza
Munir al Barsh, Diretor‑Geral do ministério da Saúde em Gaza, afirmou que estimativas indicam que mais de 8000 palestinianos perderam membros durante a guerra genocida de Israel em Gaza, incluindo mais de 3000 crianças.
Ele disse que Gaza tem especialistas formados capazes de produzir e adaptar próteses, mas que as restrições à entrada de matérias‑primas e suprimentos médicos impediram muitos pacientes de receber próteses adequadas.
“A prioridade deveria ser a criança palestiniana que perdeu uma perna ou um braço e precisa de reabilitação”, disse Barsh. Ele pediu que organizações internacionais e empresas globais apoiem os amputados palestinianos e ajudem a fornecer próteses e equipamentos de reabilitação.
Apelos ao boicote
A controvérsia intensificou‑se depois de imagens da campanha se espalharem amplamente online, com utilizadores pró‑palestinianos contrastando o acesso de Biton a próteses e serviços especializados com as condições enfrentadas por milhares de amputados em Gaza.
O canal 15 de Israel disse que publicações sobre a campanha obtiveram milhões de visualizações, enquanto pedidos de boicote à Adidas se espalharam nas redes sociais.
Perante esta reação, a Adidas Arabia, a conta regional da marca para o Médio Oriente nas redes sociais, emitiu um pedido de desculpas pela campanha, afirmando que uma imagem usada numa ativação local recente tinha causado “preocupações e reações fortes.”
“Nunca foi nossa intenção causar ofensa, e pedimos desculpas a quem se sentiu afetado”, disse o comunicado, enfatizando que a promoção foi uma iniciativa local e não parte de uma campanha global.
A Adidas Arabia também afirmou que a empresa continuará a “ouvir, aprender e trabalhar” para garantir que as suas ações reflitam os valores inclusivos que declara.
Para os amputados de Gaza, porém, a controvérsia expôs um abismo que vai muito além de um anúncio isolado.
Uma campanha colocou um amputado em destaque.
Milhares em Gaza ainda esperam pela chance de voltar a andar.
Forças de ocupação israelitas mataram mais de 73 000 palestinianos e feriram mais de 174 000 na guerra genocida de Israel em Gaza, que destruiu ou danificou grande parte da infraestrutura civil do enclave desde outubro de 2023.




















